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Garupa
Depois de quase duas horas por estradas maravilhosas, um sono de lascar,
afinal eu tinha acordado 5h da manhã.
Nossa aventura não foi só no ar, as estradas prometiam,
e como andar de moto também é aventura, unimos o útil
ao agradável e aproveitamos.
Tempo pra almoçar, nem pensar, tínhamos o objetivo de praticar
mais dois esportes ainda no sábado. Chegamos em Atibaia exatamente
às 13h45, será que o vento ainda continuava a nosso favor?
Afinal é um tipo de esporte que depende única e exclusivamente
do vento, aliás, de bons ventos. E olha que interessante, neste
dia o outono começaria por volta das 14h30, que incrível
fazer o voo neste horário, bela entrada de estação
e de emoção.
Apesar de ser a vez do Zé, eu estava preocupada, senão,
quem me traria pra casa? Brincadeirinhas a parte, ainda tínhamos
que subir a Pedra Grande e desta vez não seríamos içados.
Didi, o nosso piloto do voo duplo. pediu para encontramos com ele onde
mais tarde seria o nosso pouso, ou melhor, o do Zé.
Quando chegamos, ele olhou e disse que só poderia realizar o voo
duplo se fosse com uma pessoa até 60kg devido ao tamanho da asa
escolhida.
“Puts”, pensei, estou ferrada. Era uma das coisas que eu já
tinha desistido de fazer na minha vida. Os outros eu até encarei,
mas Asa Delta não estava realmente nos meus planos. Quando tinha
15 anos eu só pensava nisso, mas depois de um tempo, sabe como
é, a gente amadurece e muda de idéia. Conversei e disse
que o Zé encolheria a barriga e que tudo bem poderia ser com ele
mesmo. Sem chances, não dava não, tinha que ser eu mesma.
-Didi, você nem imagina o quanto eu te xinguei, não dava
pra pegar uma asa maior?
Outra coisa, ele disse que a estrada estava ruim e que nem 4x4 estava
subindo e que teríamos que ir de "gaiola". Resolvemos
que iríamos até um trecho com a moto e depois ele nos rebocaria
até o topo da pedra. Dito e feito, a “bichinha” subiu
fácil.
Chegamos, o medo começou a aumentar, mas o visual era tão
deslumbrante que comecei a esquecer o que eu tinha ido fazer ali. É
um lugar com um “puta” visual, com perdão da palavra,
indescritível, tem que ir pra sentir, mesmo porque a energia do
local, com todas aquelas pessoas fazendo o que gostam, fica difícil
não se encantar.
Volta à realidade, Didi me chama pra conversar. Quem é esse
cara? O que mais ele faz da vida? Um monte de questão começou
a rodear minha cabeça. Devo ir ou não? Será que tenho
tempo pra pensar e mudar de idéia? A minha vontade era de matar
o Zé. Acho que ele estava amarelando sim, deu graças a Deus
quando teve que tirar o esbelto corpinho fora.
Fizemos um work shop, o Didi sabia da minha apreensão, mas sabe
também que todo mundo que sobe ali tem que sentir isso, senão,
não tem graça. Não é como pegar metrô
ou andar a cavalo, e ter medo faz parte, até mesmo para tomar as
devidas precauções. Olha que pra mim, logo de cara confiar,
não é nada fácil, principalmente quando se coloca
a vida em primeiro plano. A conversa foi me acalmando, a climatização
com o ambiente e com todas aquelas pessoas que estavam ali foram me dando
confiança e decidi que seria a minha chance de realizar o que eu
queria fazer aos meus 15 anos. Voltei a ser, pelo menos naquele momento,
uma adolescente e arcar com todas as consequências de uma decisão
imediata, coisas que a idade nos limita. Sempre pensamos muito no que
devemos e não devemos fazer e às vezes estes limites nos
tiram a possibilidade de viver experiências únicas e naquele
momento só o Didi poderia me dar. Cheguei à conclusão
que só nós resolvemos o que queremos fazer e que as pessoas,
depois da decisão tomada, podem fazer parte dos acontecimentos.
Hora do treino sem a asa. Gritos não faltaram, mas foi muito bom,
ali mesmo desopilei o fígado. Didi sempre me passando confiança.
Não tinha a idéia que até ali eu também tinha
que tomar a decisão. Achei que seria empurrada, sei lá,
não pensei que teria que correr pro abismo.
O que me marcou muito foi uma frase que meu piloto maluquinho disse:
_Débora, tudo está perfeito. Olha, sente, tá tudo
lindo e a nosso favor. Só de escrever ja me emociono.
Gente foi uma das melhores sensações de minha vida. Estava
enfrentando um medo, realizando um sonho e mudando muitos pré-conceitos
em minha vida. Diferente do que muitos pensam, esporte radical é
algo muito sério, as pessoas que se propõe a fazer, o fazem
com muita responsabilidade. É uma decisão individual, mas
uma vez tomada, procure se informar para poder vivenciar esta experiência.
O vento não estava ajudando a subir para sobrevoar a pedra e a
melhor decisão foi aterrissar. Voamos 30 minutos a 2000 pés
(600m) com uma asa de 12 m de envergadura e aterrissamos de barriga, o
que na minha opinião, foi muito interessante, divertido e fantástico.
Será que eu gostei?
Piloto
De Rio Claro até Atibaia seriam 149 km pelas Rodovias Anhanguera
e Dom Pedro I, seriam se eu não tivesse me perdido algumas vezes
na entrada da Dom Pedro. Mas chegamos.
No local do pouso em Atibaia encontramos com nosso pequeno grande piloto
Didi, que logo quis saber qual era o meu peso. Azar da Débora.
O caminho até a Pedra Grande é bem cascudo, e longe. Demora
uns quarenta minutos para chegar ao topo, fomos com a moto até
bem perto, deixamos a moto na bica e subimos na gaiola do Didi, que sobe
até em parede.
Bem que eu queria saltar, mas além da asa ser pequena, alguém
teria que voltar com a moto. Sendo assim fiquei no chão de novo,
que pena!
Olhando da beradinha da pedra grande pra baixo, dá até arrepio,
mas eu acho que já que estamos aqui em cima, alguém tem
que saltar. A Débora.
E ela foi, mas precisava gritar tanto?
*Ps.Debora diz:
Mereço uma replica: Isso porque não era ele!!!
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